Fundadora do Observatório da Canábis pede alternativa “para doentes que podem não ter tempo”

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Fundadora do Observatório da Canábis pede alternativa “para doentes que podem não ter tempo”

A filha de Carla Dias deixou de ter “crises epiléticas” diárias desde que começou a tomar óleo canabidiol, em junho de 2018. “Começou a olhar para nós, passou a estar cá”. Hoje, no dia em que conseguiu constituir oficialmente o Observatório Português de Canábis Medicinal, OPCM, apela ao Infarmed para que seja desbloqueada a venda desta substância.

“Há um bloqueio qualquer”, explicou esta tarde, ao JN, a professora de inglês do secundário, pouco depois de celebrada a escritura de constituição da OPCM, num cartório notarial pertencente ao distrito de Coimbra. A prioridade do Observatório é “ajudar os pacientes que precisam destes produtos porque há pacientes que podem não ter tempo”, disse, referindo-se aos doentes que estão a fazer quimioterapia e para quem este óleo pode ter um papel relevante no atenuar dos efeitos dos tratamentos: náuseas, entre outros.

O segredo deste bloqueio parece estar guardado nos corredores do Infarmed, Autoridade Nacional do Medicamento. “O Infarmed diz que ainda não recebeu nenhum pedido de colocação no mercado destes produtos baseados na canábis”, afirmou, “mas se é assim, porque não analisa os produtos que antes existiam nas lojas de produtos naturais, que eram vendidos como suplementos, e os coloca de novo à venda como medicamentos?”. Esta situação está prevista num dos artigos da lei 33/2018.

 

“Precisamos de encontrar uma alternativa, estamos dispostos a sentarmo-nos e conversar para se encontrar uma solução imediata para os doentes”, declarou Carla Dias. O óleo de canabidiol pode tratar epilepsia e aliviar sintomas de doenças degenerativas.

Neste momento, e paradoxalmente, sublinhou, não é possível adquirir o óleo de canabidiol em Portugal. Antes da lei, podia ser comprado em estabelecimentos de produtos naturais. Após a legislação – julho de 2018, regulamentação em janeiro deste ano e respetiva entrada em vigor – foram retirados os existentes, deixando-se um vazio na oferta. É suposto que passe a ser comercializado nas farmácias, depois de cumpridas todas as normas, refira-se. Hoje, resta então o mercado negro, as aquisições pela internet, com todas as implicações associadas e fraca garantia da qualidade do produto.

Isa, a sua filha, agora com três anos, é o exemplo de alguém que precisa que lhe administrem diariamente uma gota concentrada de óleo canabidiol. Aos 10 meses, Isa teve um “estado mau epilético” que lhe causou lesões graves, apagando as capacidades adquiridas até aí. “Já dizia mamã. Era uma menina normal para aquela idade. Perdeu tudo o que tinha ganho”, contou Carla Dias.

Depois de várias investidas, consultas médicas, pesquisa na internet, Carla Dias ouviu num programa de televisão uma jornalista chamada Laura Ramos falar nesta hipótese de tratamento e não parou enquanto não encontrou uma solução mais eficaz para o problema da filha. Isa tinha uma média de três a quatro “ataques de epilepsia” e chegavam a ser 10 por dia em alguns períodos, que ocorriam sobretudo durante a noite.

Vários especialistas disseram-lhe que enquanto ela não acalmasse, a epilepsia não fosse controlada, a pequena não estaria em condições para acomodar mais informação. Foi um médico em Espanha que acabou por a orientar. “Em Portugal, os médicos não têm ainda preparação para lidar com estes novos medicamentos”, acusa.

15 dias depois de começar a tomar diariamente a gota de óleo cananibiol, os sinais de melhoria eram evidentes. As crises quase desapareceram. “Foi fantástico. Não posso dizer que tenha sido um resultado milagroso. Isa continuou a tomar outros medicamentos, muitos deles adequados a adultos e com efeitos devastadores no futuro, mas o óleo foi coadjuvante e determinante”. Na primeira fase, não disse nada aos técnicos que a apoiavam nas terapias, nem ao marido sequer, e todos eles repararam em mudanças significativas.

Foi a partir daí que resolveu divulgar o caso da sua filha, escreveu um livro, empenhou-se em contactar outros doentes interessados no assunto, e tomou a decisão de fazer alguma coisa para ajudar também outras pessoas. “Estive muita sozinha”, lembrou.

Fonte: Jornal de Notícias

 

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